CRÓNICA DE NINGUÉM

Não consigo fechar a gaveta da inquietação, uma vez que lá dentro tudo está por resolver, isto é, coisas como peixe fora de água, abrindo e fechando a boca, de aflição, de espanto, de espera, ou apenas soltando palavras que ninguém ouve, que ninguém entende, palavras que se desfazem ao fim de segundos uma vez que esbarram apenas no ausência de tudo e portanto, supérfluas, incapazes, impotentes, talvez nem palavras e apenas letras arrumadas de certa forma a que se desejem fazer entender, letras sem lei, vadias, ladras, vigaristas, hipócritas, falsas, mentirosas

     que estão sempre para chegar e sempre para partir
letras sem forma, amorfas, nulas e de seguida a dobra do silêncio, vincada, nem sei se por engano ou desejo, mas vincada, indisfarçável, a pairar sobre os sussurros do tempo que não se queda nos relógios e circula imparável pelo ar,
     o peixe fora de água
com uma rede empunhada, como quem caça borboletas que ninguém vê porque pousadas nos buracos da alma, escondidas, encolhidas, de asas dobradas, ausentes, espreitando os movimentos exteriores, sustendo a respiração, o ar parado, não vento, não brisa e só vendavais inquietos, irrequietos, de nervos à flôr da pele, a calma em caixotes, pronta a deixar o lamento do cais, as gaivotas pairando sobre os movimentos, as sombras em rodopio, outras sombras paradas, outras não sombras porque nada que as produza, é estar e não estar, é ser e não ser, é sentir e não sentir, raiva, desprezo, desdém, 
     não ódio porque não odeio ninguém
alegria, contentamento, riso, choro, o prato mal comido, o caixote do lixo, o pão sobre a mesa, mordiscado pelos cantos, não por bocas, não por mãos, um copo meio vazio
     ou meio cheio
os talheres gastos, o guardanapo de lágrimas, a cadeira de lado, a almofada espremida, as formas de um corpo ausente,
     o peixe fora de água
arredado dali, em todo o lado e em parte alguma, inclinado, deitado, jogado à terra, refletido num espelho quebrado, desconexo, desencaixado, tal como este texto arrancado a ferros, que se armadilhou a si mesmo, a granada, a bomba, a explosão, o som, o não som, enfrentado quem o escreve, atropelando-lhe a intenção, mudando as regras, adiando o final
     que final?
porque nenhum texto acaba, porque nem texto, nem letras, nem mãos ou dedos que as embalem, o erro, a hesitação, a busca, o medo,
    o peixe fora de água
o pânico, o vazio, a incapacidade, o escrutínio, a fuga, a queda, o desamparo, a nódoa negra, a saliva, a ferida, o afago,  a gaveta, a inquietação, o desassossego, a espera, a esperança, o choro e o riso, o lamento e o fermento, a massa, o calor, o pão, o forno, o lume, depois o frio e afinal tudo e nada disto porque agora me rendo, porque nem sempre me aprendo.

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©AL.Março2014
destaques

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