Apesar de tudo, persistem-me e insistem-me duas vulgares vontades, ainda firmes nos dias que ando:

Ler e ouvir música.

Curiosamente, ou não, são duas atividades que não apelam à companhia, à conversa mole, à vontade de saber e querer saber do que se está a passar.
O meu estado “letárgico”, sendo estranho em mim, tem-me trazido mais tranquilidade, quanto mais não seja momentânea, pois que pouco me importuna o cachecol do senhor Varoufakis ou os murros na mesa do outro senhor, o Tsipras, dados na Grécia ou nas secretárias de mogno preto da Comissão Europeia, algo com que muita gente farta desta mole corrente de políticos e executores engravatados e fatiados
     porque enfiados dentro de fatos
nesta altura se vai auto-estimulando em maior ou menor grau, uns desejando que tudo mude mesmo, outros desejando que tudo mude para tudo ficar na mesma, outros juntando as mãos e os dedos numa simetria de espelhos, erguidos aos céus e vaticinando o caos e o apocalipse, engendrados para lá desta ordem em que vivemos num sobressalto manso e localizado quase sempre entre paredes e de rabo no sofá.
Ler – O livro que tenho entre mãos é uma possante “Biblia” de 900 páginas, que de uma forma a roçar o cruel e aqui e ali o sublime, vai desenhando o que é hoje a condição humana, entre o caos e a ordem, a fuga e o comodismo, os valores ou a falta deles com que crescemos, o cada vez maior afastamento face à natureza e de como isso nos embrutece, muito embora
     aparentemente?
nos prepare
     melhor?
para o futuro que se desenha com contornos mais ou menos percetíveis, uma vez que a natureza em estado mais ou menos “puro” ou “conservado”, está confinada cada vez mais a pequenos “guettos” que surgem quase como afrontas à modernidade, produtos de pequenas esmolas que a humanidade vai concedendo a si mesma, como se tratasse de obra benemérita, arrancada a ferros ao implacável rumo que nos leva em direção ao
     abismo?
futuro que queremos para o próximo segundo, porque o hoje escalda, o ontem está lá para trás e a aceleração que a vida quotidiana sofre é a mesma que queremos impingir à própria História, olvidando-nos que a aceleração do tempo é a aceleração de nós mesmos.
Música – A (quase) única linguagem que vou suportando, porque a ouço e procuro quando quero, não me é imposta, não me é exigida, não me é cobrada e mantém o seu nível para lá do que se estabeleceu ou alguém estabelece como a norma e a correção.


Nota: Estes textos são idiossincráticos até ao tutano. Não sei se alguém se dá ao trabalho de os ler, pouco me importa se o fazem e ainda menos me importam os rótulos que me vão pondo relativamente a esta exposição tão crua e tão desalinhada.
Mas por eles percebe-se que resistirei a ser mais um bovino ou caprino, disposto a pastar onde me mandam, de palas nos olhos e a seguir, ordeiramente, as “ordens” dadas por pastores reais ou imaginários, cujo objetivo eu desconheço e, seguramente, não é o meu.
destaques

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