TREZE DE MAIO, EM FÁTIMA

Treze de maio é sempre uma data carregada.
Há uma densidade aflita no ar e na cidade declarada altar do mundo, corre naquela fina linha que separa os joelhos do alcatrão e do cimento da Cova de Iria, desce pelas pernas que se arrastam pelo piso das estradas que rumam àquele coração coletivo, as dores tantas dos que fazem o mundo e o peso que carregam às costas ou apenas a fuga para a frente ante o espectro sem sorriso da morte.
As aflições próprias, as promessas, os pagamentos e tudo em gravidade, em círculo de abre e fecha, voltas completas, revoltas por mastigar, medos por digerir, alegrias para esconjurar, a Senhora alva no altar e a fé cantada à luz das velas, as mãos juntas dedilhando as contas do um terço, as orações, as devoções, as desilusões porque não é a Senhora e o que ela manifestamente não pode e não faz porque é o Homem, é em cada um, reze muito, pouco ou nada que pode ou deixa de poder, que faz ou deixa de fazer e a Senhora, de rosto cândido e olhar fixo num éter que nos cobre, a Senhora que apenas observa por entre esconderijos de flores, cheiro a cera de vela, as aragens do ar empurrado a vento, sopros alheios, o calor, a chuva, a condição da vida, os olhares e os sons, mil e um, prostrados nela, escrevem no ar a palavra “Esperança”, sempre na aflição dos dedos, no aperto esconso da alma, quando tudo parece pequeno, estreito, a contagem das lágrimas, o catálogo das dores, o mapa da existência, a geografia da vida.
Em Fátima. A treze de maio.

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