Desterritorialização e filiação ao lugar: Aldeia da Luz, Vilarinho das Furnas, Foz do Dão…

Ana Maria Cortez Vaz dos Santos Oliveira apresentou em 2011
à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra uma Dissertação de mestrado em
Geografia Humana (Ordenamento do Território e Desenvolvimento), onde estuda os
processos de desterritorialização e filiação ao lugar. O seu estudo incide na
Aldeia da Luz (Alqueva) mas dedica também um capítulo à Foz do Dão.
Escreve esta investigadora na introdução que “a problemática
do processo de desterritorialização é pertinente e actual. “ Salienta também que
“o vínculo, a filiação, o apego, o laço que nos une a determinado território
está sujeito a riscos que podem ter origem em múltiplos factores e
circunstâncias como, entre outros, a guerra, a crise económica, o desemprego,
qualquer tipo de confinamento espacial, cheias, sismos, movimentos de vertente
ou, como no caso que se analisará neste trabalho, a construção de grandes
infra-estruturas, como barragens.”
Referindo-se à Aldeia da Luz, afirma que “apesar da velha
aldeia ter desaparecido na paisagem, esta continua presente na memória e na
identidade das populações.”
O mesmo poderíamos dizer da aldeia da Foz do Dão. Nesse
sentido, transcrevemos um excerto, aconselhando a leitura integral e o estudo
deste trabalho académico.
“A aldeia de Foz do Dão pertencia à freguesia da Óvoa,
município de Santa Comba Dão e foi submersa aquando a construção da barragem da
Aguieira. Com Foz do Dão, também as localidades de Breda, Senhora da Ribeira e
Barra da Asna ficaram submersas pela albufeira da barragem da Aguieira.
A aldeia de Foz do Dão marcava, como o próprio nome indica,
o local onde o rio Dão desaguava no rio Mondego. A sua população tinha como
principais actividades a agricultura de subsistência, a extracção de areia e a
pesca, principalmente de lampreia e sável.
A barragem da Aguieira fechou as comportas em Junho de 1980,
dando-se início ao enchimento da respectiva albufeira e posterior submersão das
aldeias.
Figura 16- Foz do Dão, aquando a visita do Professor António
Salazar à aldeia.
De salientar que a única infra-estrutura que não foi
destruída para a submersão da aldeia foi a ponte.
Fonte: fozdodao.blogspot.com,
consultado em Maio de 2010.
[Gravura publicada na  pág. 54 desta Dissertação de Mestrado]
Este processo de quebra da topofilia ocorre na década de
(19)80, num período politico bastante diferente do vivido no processo de
desterritorialização da população de Vilarinho da Furna, embora ambos se
caracterizem por serem ex-situ, colectivos e totais. Isto é, os processos
implicaram a deslocação da população, atingiram a comunidade, a sociedade das
aldeias, e em ambos os casos, houve uma quebra total do vínculo com o
território, dado que as aldeias ficaram submersas. No entanto, também não se
registaram intervenções de cariz psicológico ou de auxílio e assistência social
às populações desterritorializadas.
Uma nota importante e de bastante valor para as populações
sujeitas a processos de desterritorialização é a transladação dos corpos que se
encontram nos cemitérios destas povoações que serão submersas. Enquanto que em
Vilarinho da Furna não houve transladação do cemitério, em Foz do Dão foi
autorizado que os indivíduos que quisessem transladar os corpos dos seus entes
para cemitérios mais próximos, o poderiam fazer. Houve assim uma mudança também
dos territórios simbólicos.

A população que residia em Foz do Dão procurou assim novos
territórios e a reterritorialização passou pelos concelhos vizinhos de
Penacova, Mortágua e outras localidades no município de Santa Comba Dão. Foi
criado entretanto o Bairro Nova Foz do Dão, em Óvoa, que será o lugar com maior
concentração de pessoas naturais e antigos residentes de Foz do Dão.
Ao contrário de Vilarinho da Furna, sobretudo da divulgação
através das obras de Jorge Dias e de Miguel Torga, Foz do Dão não serviu de
representação para escritores ou realizadores, daí que a informação sobre a
aldeia, que está submersa seja muito escassa.”
 Aceda à obra integral através do link:

destaques

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