O meu concelho está pintado a negro

Rua da aldeia de Lufreu
O cinzento da paisagem entranha-se na alma e é difícil olhar para o que está à minha frente. Terra queimada, vidas desfeitas, casas esventradas. Parte do meu concelho foi consumido por um monstro que vindo lá de longe, empurrado por ventos, quase ciclónicos, galgou encostas, invadiu aldeias e pintou de negro a paisagem.
Na Ribeira, em São Pedro de Alva, ouvi testemunhos dos que ficaram, daqueles que resistiram e enfrentaram a besta, numa luta desigual. Conta-me o senhor Alípio, que o bailado das chamas só foi travado depois de horas de combate. As mangueiras e o trator foram as suas armas, a roupa que tinha no corpo, molhada repetidas vezes para aguentar o calor, foi a sua armadura. António, do alto dos seus mais de oitenta anos, também não deixou a sua aldeia ser tomada pelo fogo. Com a voz embargada confessa que ultrapassou o medo e lutou até ao limite
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