Rua da aldeia de Lufreu
O cinzento da paisagem entranha-se na alma e é difícil olhar para o que está à minha frente. Terra queimada, vidas desfeitas, casas esventradas. Parte do meu concelho foi consumido por um monstro que vindo lá de longe, empurrado por ventos, quase ciclónicos, galgou encostas, invadiu aldeias e pintou de negro a paisagem.
Na Ribeira, em São Pedro de Alva, ouvi testemunhos dos que ficaram, daqueles que resistiram e enfrentaram a besta, numa luta desigual. Conta-me o senhor Alípio, que o bailado das chamas só foi travado depois de horas de combate. As mangueiras e o trator foram as suas armas, a roupa que tinha no corpo, molhada repetidas vezes para aguentar o calor, foi a sua armadura. António, do alto dos seus mais de oitenta anos, também não deixou a sua aldeia ser tomada pelo fogo. Com a voz embargada confessa que ultrapassou o medo e lutou até ao limite das suas forças! Sem ajudas, sem bombeiros, arriscaram a vida, resistiram e ficaram!
No Lufreu, a rua principal exibe as marcas profundas deixadas pelo incêndio. Casas sem telhado, sem janelas, sem vida! Confessa-me João Pedro, um jovem da aldeia, que o inferno passou por ali e à população, na grande maioria idosa, não restou outra alternativa a não ser fugir.
Em Covais, ao lado de Travanca do Mondego, uma casa, junto a uma antiga fábrica, não resistiu à fúria destruidora das chamas. Na escadaria do que resta da habitação, uma gata procura o dono. A filha, Maria Adélia, de olhar lacrimejante, revela que o pai ficou sem teto.
Por onde passo, em cada estrada, em cada aldeia, o cenário repete-se. A única pergunta me vem à cabeça é porquê, porquê? Era possível evitar esta tragédia? A severidade deste fogo é uma consequência das alterações climáticas? Porque é que a floresta portuguesa arde mais do que a do resto da Europa? O estado fez tudo para proteger os seus cidadãos? As dúvidas e inquietações são tantas que a angústia tolda-me o pensamento…
Em agosto de 2003, há quase década e meia, grandes incêndios devoraram os concelhos de Oleiros, Sertã e Aljezur. A revista Visão entrevistou, nessa altura, Gonçalo Ribeiro Telles, arquiteto paisagista, ecologista e uma das vozes mais autorizadas, na matéria. Perguntam-lhe porque ardem as casas – “Porque destruíram as hortas e porque o pinheiro e o eucalipto estão no quintal!”, responde. E o que pode fazer o estado? “O estado não faz planos gerais de urbanização? Então também pode fazer planos integrados da paisagem. Não se devia plantar o que se quer, porque também não se pode construir o que se quer!”    
O terrível incêndio de domingo deixou um rasto de destruição nas uniões de freguesia do alto concelho de Penacova. Perdas humanas, dezenas de casas de primeira habitação afetadas, empresas, armazéns, propriedades agrícolas consumidas pelo fogo, são marcas que ficarão para sempre na memória dos penacovenses. A solidariedade que brota das comunidades locais é muito importante, nesta hora de confortar as vítimas, mas é sobretudo fundamental que o estado assegure, de uma forma ágil e inequívoca, o apoio necessário para que as famílias e as empresas possam reerguer-se. 
destaques

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